sexta-feira, 18 de maio de 2012

O resgate da Honra!


     Às vezes, o silêncio da minha negligente sonolência é quebrado  pela voz aguda de uma criança, com uma antiga fotografia nas mãos, perguntando: "Vovô, é você nesta foto"? 

     Imediatamente, as lembranças de uma época voltam num "flash back"  inevitável e surpreendente! Foi assim há poucos dias, diante de um retrato que me levou de volta a trinta e seis anos no passado!


   "Julho de 1976: em pleno inverno, após quatro anos vivendo na ensolarada Araraquara, aceitei minha transferência daquela cidade para Itatiba, com a missão de assumir as funções de chefe da instrução do Tiro de Guerra local.

    Fui gentilmente recebido na cidade, pelo Sr Prof Álvaro Bortolossi, então Secretário da Junta do Serviço Miliar e sua digníssima esposa.

    Ao percorrer as dependências da sede do TG, além do imprevisível frio, um angustiante desânimo me levou a solicitar aos meus superiores na Capital, a minha imediata desistência daquelas funções.
Sede do TG em Julho de 1976.  Nas paredes as marcas das enchentes.
     Por telefone, relatei o que havia encontrado: carteiras escolares destruídas; inutilizados fuzis dependurados em pregos nas paredes da reserva de armamento; a bandeira do Brasil utilizada em desfiles e solenidades, com a metade inferior na cor marrom, resultado de  enchentes que deixaram marcas acima de um metro nas paredes; um desagradável cheiro de mofo e podridão invadia o ar; o telhado perfurado por tiros; as portas marcadas por profundas fendas provocadas por arremessos de baionetas; ausência de chuveiros e sanitários decentes; os atiradores de serviço dormindo no chão em colchões que os mesmos traziam de casa... Enfim, era realmente desanimador o estado em que se encontrava o TG, sem contar o moral do Exército junto a comunidade e a baixa auto estima dos jovens recém matriculados naquele semestre. 

   -" Não! Sua missão é mudar tudo isso que aí está e pode contar com meu total apoio!"  Foi a resposta do Maj Chefe da Seção de Tiros de Guerra da 2a Região Militar, em São Paulo.
    
    O militar não discute as ordens superiores. Simplesmente, acata e executa!  Missão dada, missão cumprida!

     Poucos meses depois, a sede do TG se tornara motivo de orgulho da comunidade!   
    
    A Prefeitura não dispunha de recursos financeiros, mas forneceu mão de obra. Consideráveis empresas e benfeitores da sociedade itatibense, solidariamente, contribuíram com bens materiais.

    É  necessário deixar registrado neste post, os nomes daqueles importantes colaboradores, que cooperaram na melhoria das  condições dignas e saudáveis ao ambiente de instrução dos jovens itatibenses, com doações de: materiais de construção, beliches, roupas de cama e cobertores, louças sanitárias e chuveiros.   Junto aqui, o meu mais profundo agradecimento ao Empresário Dr Paulo Abreu Júnior; aos saudosos Comendador Francisco Bartholomeu e empresário Victor Karalic; e à S/A Fabril Scavone. 

   Especial reconhecimento se faz necessário aos até então, Cabos Sérgio Quaglia e Eduardo Antonio Costa, pelo sacrifício e tempo dedicados na árdua tarefa de reerguer das ruínas, uma instituição  há tempos relegada ao desleixo.  



 Igualmente grandiosa foi a  dedicação e carinho no trato respeitoso com as pessoas e ao trabalho, do saudoso  Sr Armando Bortolossi. 

   
     Alécio Vitiello, mais que um excelente funcionário;  portador de grande competência e fidelidade ímpar, só comparada a de um  irmão!
    

    Merecedores também de gratidão, foram os jovens atiradores daquela turma, que imbuídos das responsabilidades exigidas, souberam cumpri-las galhardamente, reconstruindo a imagem física e moral daquela instituição de ensino!



    Cinco turmas de oitenta alunos cada, passaram por aquele TG  sob meu comando. O crescente desempenho das turmas,  elevou o nome do TG de Itatiba nos concursos de tiro de fuzil realizados ao final de cada semestre, entre instrutores e atiradores. Conquistamos o respeitoso lugar de campeões, trazendo para a cidade, troféus e medalhas de ouro, ao contrário dos anos anteriores, quando  feixes de capins, eram as humilhantes condecorações destinadas ao último colocado. Competiam conosco, os instrutores e atiradores das respeitadas  cidades de: Piracicaba, Americana, Mogi Mirim, Amparo e Bragança Paulista. 

    Evidentemente, sempre existiram os que apostaram na continuidade do caos e desordem, principalmente quando o nome de uma instituição honrada estava em jogo, mas, a decepção de alguns, foi superada pela enobrecida vitória de muitos!

   Em Janeiro de 1979, ao perceber que uma possível transferência era cogitada  para outra localidade, onde mais um  TG se encontrava também em péssimas condições, decidi deixar o Exército e permanecer nesta cidade, no momento em que minha segunda profissão reclamava integral dedicação".


Formatura da minha 1a Turma em Itatiba/Dez 1976.
    Esta é parte da história da vida de quem viveu e presenciou como eu, exemplos de: dignidade, honra, superação, patriotismo e sacrifícios no cumprimento do dever, durante o tempo a serviço da Pátria e pode hoje, revendo fotos envelhecidas, relembrar ao lado de filhos e netos, um passado repleto de conquistas e realizações!

   "O pessimista vê dificuldade em cada oportunidade; o otimista vê oportunidade em cada dificuldade".Winston Churchill.

    "O Prêmio é a consequência lógica e natural da superação, quer seja ele em valores materiais ou não". Ivan Teorilang.

4 comentários:

  1. Conheço bem o sabor do sentimento que nos traz a superação, o dever cumprido, a transformação que a força do trabalho pode realizar. Parabéns, Old Eagle, mais uma vez!

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    1. Sabemos o que é sentir o sabor da vitória. Mas acima de tudo, reconhecer que sozinhos nada teríamos conseguido, chegamos tarde demais para homenagear ainda em vida, ilustres personalidades que cruzaram nosso caminho!

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  2. Grande Sgt Nani, muito me honra ter participado dessa história de reconstrução do TG de Itatiba, sob seu comando. Sua missão muito bem cumprida. Itatiba lhe agradece, inclusive por estar contando essa parte de sua história. Parabéns! Grande Abraço.
    Sergio Quaglia

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    1. Obrigado, Sergio, pelo comentário. Espero não ter esquecido dos grandes colaboradores, como você,sem os quais, minha missão não teria sucesso. Abraços.

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