segunda-feira, 1 de setembro de 2014

No Tempo da Asa Delta.

Caraguatatuba-SP  vista da rampa de decolagem no Morro Santo Antonio - 340 metros de altitude. (foto Google)




              "Texto produzido com autorização e  colaboração do protagonista da história".
 
Ernesto Zanardi

    Ultimamente, tenho percebido que muitos dos amigos que conheci nas décadas de 1970/80, voando em diversos locais por todo nosso país, apenas alguns, continuam praticando aquele esporte originalmente, ainda hoje.  Outros,  migraram para as mais diversas opções  em esportes aéreos agora disponíveis.

     Dos amigos daquela época - os Dinossauros Voadores -  quero falar de um em especial:   Ernesto Zanardi - voador de asa delta - e dos fatos ocorridos num final de semana prolongado, na cidade de Caraguatatuba, onde em companhia da sua namorada, meus filhos e minha esposa, acampamos!

     Embora a intenção fosse a de voar e proporcionar às nossas famílias diversão e lazer, do ponto de vista do amigo, muito mais almejava ele, quando o encontrei na praia, já descarregando seu "fusca"!  Além da asa e equipamentos de voo,  ele levou também:  um caiaque, tralhas de caça submarina e pesca, material completo de acampamento e outras bugigangas, que mais tarde, foram por ele utilizadas numa sequência divertida!

     Mal acabamos de  montar nosso acampamento, uma chuva fina e intermitente teve início.  Choveu a noite inteira, mas o dia seguinte amanheceu ensolarado.

     Preparamos tudo e seguimos para a rampa  no morro Santo Antonio.  Nossas asas eram de média performance.  Quando estávamos prontos para decolar, o Ernesto me mostrou todo orgulhoso em seu pulso, um enorme altímetro de paraquedismo,  que segundo ele, nas condições de voar ali - decolagem longe da praia e uma cidade inteira para sobrevoar - seria muito útil, quase necessário!

     As condições não eram das melhores! Apenas uma brisa soprava de frente!  Decolei, e logo tive que voar para a praia, onde pousei minutos depois!

     Em seguida, acompanhei o voo do amigo, que apesar do seu novo equipamento de pulso,  sequer chegou na praia.  Realizou um seguro "pouso de emergência" sobre uma árvore na praça da cidade.  Quebrou a asa, mas tudo bem! Saiu ileso, acompanhado de um grupo de curiosos e um repórter da Rádio Jovem Pan,

     Sem asa para voar, ele nos convidou para assistir a uma demonstração de canoagem nas ondas do mar, ali, bem perto do camping!  Meus filhos e eu, todos ansiosos, ajudamos o amigo com seu caiaque.

     Teve início a demonstração.
     Mal ele vencera a arrebentação e parecia que navegava sem rumo: ora para a  esquerda, ora para a direita... De repente, o caiaque virou.  As crianças, assustadas, correram em seu socorro, enquanto ele lamentava a decepção! Tudo bem!  Ele saiu ileso mais uma vez!   Apenas perdera o seu remo.  - "O mar levou'',  lamentou ele!

     Em seguida, ele entrou em sua barraca, e depois de algum tempo saiu equipado para uma caçada submarina.  Máscara e canudo para mergulho no rosto.  Nas mãos: pés de pato e um enorme arpão.  Pediu para que eu levasse uma grande caixa de isopor e esperasse pelos peixes que ele iria buscar no fundo mar.

     Da areia, observávamos  que o amigo nadava na superfície.  De vez em quando soprava água pelo canudo.  Depois de um bom tempo, ele ficou em pé no mar. Percebemos que a água lhe batia nos joelhos.

     Como não entendo de caça submarina, achei normal!
     De repente, o Ernesto saiu  da água e caminhando cabisbaixo, trazendo apenas um pé de pato na mão, murmurou: - "O mar levou"!

     Pediu-me que esperasse ali.
     Foi até  a sua barraca e voltou rapidamente, com uma "tarrafa" nas mãos.

     Antes do sol se por, ele seguiu novamente para o mar e começou a arremessar sua tarrafa.  A cada arremesso,  eu me convencia mais e  mais de que alguma coisa estava errada! A tarrafa era lançada; abria; fechava;  e em seguida caia em cima dele. A cordinha era muito curta, deduzi!

     A diversão seguia plena, até que um grupo de garotas - vendo-me ao lado daquela enorme caixa de isopor, perguntou o que eu estava vendendo?   Pensei em várias respostas, mas, só respondi: - "NADA"!

     Anoiteceu.
     Um grupo de caçadores de rãs, equipados de lanternas e fisgas, passou pelo camping.  Adivinhem, quem  acompanhou o grupo?  Lá foi ele, com seu enorme arpão, em direção ao brejo!  Minutos  depois, ele voltou.  O pessoal o expulsou,  acusando-o de genocídio contra as pobres rãzinhas!

      No dia seguinte, em consequência da chuva que caíra durante a noite,  a subida à rampa de decolagem se tornara quase impossível.  Apesar disso, o Ernesto achou que a solução seria utilizar o seu fusca, que nos levaria ao topo do morro, para que eu voasse, afinal, alguém ainda tinha como voar!

      Nem bem atingíramos a metade da subida, atolamos!  Mesmo contando com a ajuda de pedestres que nos alcançaram, a situação só piorava!  Eles riam muito, diante do que viam dentro do carro: cadeiras, mesa, panelas, fogareiro, cobertas, roupas...  Diziam que estávamos nos mudando para o morro!  Finalmente, resolvemos desistir.

      O motor do fusca não tinha força e o seu ronco parecia avisar que alguma peça havia quebrado dentro dele.  

      Enfim, enlameados e exaustos, levamos o carro à uma oficina mecânica, onde foi constatado que um "cilindro do motor"  estava perfurado, daí a falta de potência!  Passamos o restante do dia assistindo ao conserto do motor, enquanto nossas famílias se divertiam na praia!
                                 
Ernesto e o seu novo brinquedo, atualmente, um "paramotor".

BONS VOOS, AMIGO! 




 ESTÁ COMPLETANDO 40 ANOS QUE LUIS CLAUDIO MATTOS VOOU PELA PRIMEIRA VEZ NUMA ASA DELTA NO BRASIL. Veja aqui 

Publicado simultaneamente no blog HANG GLIDING PARADISE.COM.BR

Um comentário:

Seu comentário é o que torna especial esta postagem. Enriquece sobremaneira o conteúdo!
Lembrando Saint Éxupery:"Aqueles que passam por nós, não vão sós. Não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós".
Obrigado pela visita!
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